Login | SITEMAP | FAQS

Science & Society | News | João F. Oliveira: “Vamos conseguir perceber melhor o papel dos astrócitos em cada fase da doença”

João F. Oliveira: “Vamos conseguir perceber melhor o papel dos astrócitos em cada fase da doença”


O investigador do ICVS da Escola de Medicina é a cara portuguesa na Declaração de Consenso publicada na revista científica Nature Neuroscience. Esta declaração traz um novo olhar para as Neurociências e para o estudo dos astrócitos, as células mais comuns no nosso sistema nervoso central e que alimentam os neurónios. João F. Oliveira é o único português em cerca de 80 investigadores (a maioria são líderes de grupos de trabalho na área).


A Declaração de Consenso sobre a reatividade dos astrócitos é um marco importante. Vamos ao princípio, o que é esta reatividade dos astrócitos?


Os astrócitos são umas células extremamente ramificadas e essa estrutura altera-se ligeiramente em condições normais, mas sobretudo em contexto de doença. É um dos padrões mais clássicos destas células é quando há um surto, os seus ‘braços’ engrossam e estendem-se mais – e a isso que nós chamamos uma reatividade morfológica. Esta reatividade morfológica é acompanhada pela libertação de uma série de moléculas que vão sinalizar que algo se passa. Os astrócitos vão receber sinais a dizer ‘está aqui alguma coisa estranha a acontecer’, e vão emitir sinais às células vizinhas a dizer ‘ataca’ para tentar resolver o problema.
E a essas alterações nos astrócitos foi-se dando vários nomes: gliose, astrogliose, reatividade astrocítica, etc. E, em doença isto pode acontecer, mas com o envelhecimento natural também pode acontecer algo parecido. E neste último caso já não estamos a falar de reatividade nem de um processo inflamatório – é apenas o envelhecimento saudável do cérebro. Portanto, havia aqui uma necessidade de gerar um nome comum.


E onde aparece a dicotomia ‘protetor vs tóxico’?


Nos últimos tempos, alguns grupos de investigação dedicaram-se a estratificar os astrócitos em dois grandes tipos: ou era protetor, ou era tóxico. O que se veio a verificar na realidade, em modelos celulares e em vivo, não se verifica esta dicotomia. Há múltiplos estados.
Não vamos todos andar aqui à procura de apenas dois estados, porque não é assim tão simples. E se estivermos a simplificar estamos a perder muita coisa no meio. Portanto, o nosso trabalho foi procurar um consenso para determinar como o meio vai olhar para estes fenómenos de forma mais concertada.
É muito importante definir este conceito uniforme de trabalho.


E já está definido então?


Sim, o consenso foi deixar cair esta dicotomia, este sistema binário. Chamavam-se às células A1 e A2 ou então neuroprotetor e neurotóxico. Agora essa questão cai e olhamos para os astrócitos de forma mais abrangente. Temos de olhar para a estatística de forma multivariada.


Estamos sempre a falar de astrócitos em vez de os dividir em dois…


Essa divisão era feita com base em determinadas moléculas: se libertarem isto são bons, se libertarem aquilo são maus. Era muito rígido, até porque isto não se verifica in vivo.
Não podemos olhar só para o que eles [astrócitos] estão a libertar. Temos que olhar para o que libertam, para a morfologia deles, para as interações com as outras células… E é essa visão mais alargada que agora queremos estabelecer.


Em termos práticos, a investigação fundamental e clínica beneficia em que tipo de circunstâncias?


Deste consenso não se pode tirar que vamos resolver ou perceber melhor os mecanismos no Alzheimer, ou na depressão, ou no Parkinson. A questão é que nós podíamos estar a limitar a nossa visão com esse sistema dicotómico – ou eles são bons, ou eles são maus. E é importante perceber que a mesma célula pode ser boa numa primeira fase e má na progressão da doença, ou vice-versa.
Com este consenso, vamos conseguir perceber melhor qual é o papel dos astrócitos em cada fase da doença. Vai fazer com que a investigação se molde a esta nova visão mais integrada.


Temos os investigadores a olhar para mais modalidades dos astrócitos do que até então…


Sim. Nós vamos olhar para o astrócitos como uma célula muito dinâmica que pode desempenhar vários papéis no decorrer de cada uma das doenças em que pode estar envolvida. E ao sair da visão dicotómica, vamos ter uma visão mais alargada para conseguirmos perceber melhor esse papel.


Para fechar, um breve comentário do único investigador português neste grupo que formulou a Declaração de Consenso.


Há duas formas de vermos isto. A primeira é que é um reconhecimento por estarmos a trabalhar muito bem e para tentarmos trabalhar melhor, publicar e divulgar o nosso trabalho. Por outro lado, este é um reconhecimento de pessoas que veem que o nosso contributo para esta área é importante.
É este reconhecimento que é muito bom. Estamos em Portugal, na cauda da Europa no que diz respeito à investigação e, por vezes, com tão poucos meios. Mas ainda assim estamos a discutir e a construir juntamente com pessoas em Harvard, Los Angeles, Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão... Estamos a construir todos juntos. É um sinal muito positivo para o que fazemos e este reconhecimento é muito gratificante.



Copyright © 2012-2016 ICVS. All rights reserved.